quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

desabafo

Às sextas o clã reúne-se em casa da mãe. Apesar de já septuagenária e sempre pouco dada às lides domésticas, enche-se de força para fazer o jantar. Não por mim, filho dispensável, criado longe do afago materno. Perpetua um estranho conceito de família, em que o marido sempre foi figura central. Com a morte prematura do seu deus, resta-lhe recorrer a uma ficção. Não que não goste da mãe, do mano ou da sobrinha. Gosto e muito. Mas nunca uma relação mãe-filho pode percorrer os caminhos do banal, quando lhe escutei, no desespero da viuvez recente, o desabafo de que preferiria ter perdido um filho ao marido. Os laços, já ténues, desapareceram nesse momento. Vivemos nesse fingimento de uma normalidade que nunca existiu, e esse sentido murmúrio enterrou definitivamente.

10 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Não sei se é ou não o caso da tua mãe, mas muitas vezes as pessoas dizem coisas que não correspondem ao que verdadeiramente sentem -- e por vezes nem elas têm noção disso.

Um abraço.

Fernando Lopes disse...

No seu desespero, disse exactamente o que lhe ia na alma. Não é grave, apenas deixou a angústia que exprimi. Fui criado com os avós, sempre tive os meus mecanismos de compensação.

Abraço,
Fernando

Fenix disse...

Fernando,

Podia passar à frente e não comentar, mas se o Fernando escreveu como desabafo, deixo aqui também o meu.

Infelizmente, há muito anos ouvi da boca de uma tia, cujo filho tinha emigrado para França e não lhe dava notícias, que "preferia sabe-lo morto a não saber dele". Eu era muito jovem mas mesmo assim fiquei muito chocada.

Há pessoas assim, que de tão dependentes de outra, confundem dependência com amor. E, na verdade, muitas vezes são incapazes de amar a não ser a si próprias.

Abraço
Ana

Fernando Lopes disse...

Ana,

A posta é um exercício de exorcismo. Passei a infância considerando-me "filho de um deus menor". A mãe nunca se percebeu como valorizava e se preocupava com o pai em detrimento dos filhos. Não lhe levo a mal, apenas não consigo sacudir alguma angústia de palavras que embora possam ser pensadas nunca deveriam ser proferidas. Os comentários são úteis +ara me dar uma visão exterior, mais desapaixonada e menos envolvida.

Abraço,
Fernando

Moriae disse...

Fernando, meu amigo, até pelos comentaristas se vê que não estás sozinho nestas questões. E eu junto-me ao grupo... Há coisas que preferia nunca ter ouvido ou então, que as soubesse desde logo e que não me andassem a atirar poeira para os olhos. E sim, como tu, senti-as reais e não em desabafo. Mas só a partir de umas quantas ... porque, talvez para minha defesa, tendi sempre a acreditar que poderiam ser tal como o Carlos Azevedo as refere.
Hoje, (in)felizmente, para bem da minha serenidade, vejo as coisas com maior frieza. É difícil, viver. Sobreviver.
Bjos!

Fernando Lopes disse...

Moriae, o dramático disto (se é que é dramático), é que no fundo custa superar a fase de criança que pretende a aprovação e o agrado dos pais. Afectivamente nunca crescemos, apenas montamos uma couraça de defesa e frieza como dizes. Continuamos inseguros, débeis a fingir de fortes, meninos aprisionados num corpo envelhecido. Aprendi a conviver com esta insegurança, mas nunca a superei verdadeiramente. Talvez escrever publicamente seja um forma de superação, de mandar para trás das costas e aprender a conviver com as "fraquezas afectivas". Pode demorar, mas chego lá!

Bj,
Fernando

bibónorte disse...

Caro Fernando
Como refere Moriae, não está sozinho.Também eu me muni de alguns mecanismos de defesa para sobreviver A infância não foi nada fácil e deixou marcas irreversíveis.
Um abraço

Fernando Lopes disse...

Carago, bibónorte,

Será que ninguém teve uma infância feliz, despreocupada, como aquelas que se vêem nos filmes? Eh pá eu vi "O meu primeiro beijo" e não guardo tão idílicas recordações. Desabar é superar. Desabafemos pois, tipo grupo de psicanálise!

Abraço e mantenha-se firme! ;)

MManel disse...

"Pau que nasce torto, até a cinza sai torta ... - já dizem os brazucas"

Do que li, gostava que não tivesse sido uma conversa direta convosco, e que assim sendo, pudesse haver algum mal entendido...

Mas conhecendo todas as partes, no fundo, no fundo não é surpreender a afirmação patológica, dada de quem veio.

Amor entre os humanos, sim, devoção não.

Bj grande

Fernando Lopes disse...

Amor patológico é uma bela definição. Curta e certeira.

Bj,

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