segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

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Imagem: http://www.stick2target.com/
Pela primeira vez, desde que me conheço como gente, decidimos não trocar presentes, excepção feita às crianças e aos mais velhos. Não foi a falta de dinheiro a base dessa motivação, antes o medo. Em seis meses Passos e sus muchachos conseguiram instalar a penúria nuns e o medo nos outros.

Não havia desemprego nas minhas relações próximas, típicas de classe média. Entretanto tomei conhecimento de uma boa meia-dúzia de casos. Estamos a ser poupadinhos, prudentemente poupados, apesar de  um rendimento razoável. Quem vive do trabalho, com vencimentos razoáveis, encontra-se neste momento num limbo, em que mais vale viver o dia-a-dia, sem loucuras, mas também sem precauções excessivas.

Não temo excessivamente o futuro porque tenho, como diria o Coelho, a "almofada familiar". No caso de as coisas darem para o torto, poderemos sempre fazer um downgrade, vender alguns bens, recorrer a poupanças e à família. As dificuldades que possam surgir, serão, felizmente, ultrapassáveis. Haverá sempre alguns meios financeiros, e quem "nos ponha a mão por baixo".

O que me preocupa são os casos em que as famílias são as primeiras a chegar à classe-média. Esses não têm nada para vender, poupanças para esticar, e nem sequer podem contar com o apoio de pais ou avós. Uma imensa mole que tinha um rendimento de 2.000 euros por mês ou menos, que são os primeiros a ter casa própria, um carro utilitário pago às prestações, a oportunidade de dar algum conforto aos filhos. Com um ou dois elementos  do casal desempregados e sem suporte familiar, como irão sobreviver?

É por isso que me repugna profundamente a ideia de que "andamos a viver acima das nossas possibilidades". Uma mentira repetida à exaustão não se torna, por isso, verdade. O povo português sempre viveu modestamente e agora regressa ao salazarento naco de broa e meia-sardinha.

Anseio pelo dia em que estas pessoas cabisbaixas e envergonhadas pelo desemprego [como se fosse culpa sua], saiam para a rua e defenestrem uma geração inteira de Vasconcelos, que usou o poder e lambuza agora os dedos, com o que resta da nossa esperança.

4 comentários:

Nuno disse...

Muito bom texto!

Na minha opinião, existe, claramente, um contexto que leva à criação de receio nas pessoas quanto ao seu presente e futuro, e por vezes bem mais do que isso. No entanto, é essencial desmontar os discursos que querem fazer passar, atribuindo a "todos" uma qualquer responsabilidade que os leve a pensar que são culpados de algo, e desse modo a aceitar tudo. Só desmontando esses discursos e propondo alternativas concretas, que apesar de em formação existem, é possível criar condições para se sair da actual situação, com melhores perspectivas para a população em geral que agora se vê empobrecer ao mesmo tempo que leva com discursos moralistas, e responsabilizar quem é devido.

Fernando Lopes disse...

Nuno, muito obrigado!

Limito-me à minha experiência (já longa), mas sociologicamente a classe média não é una. Existem os filhos e netos de gente de classe média que têm alguns recursos e o apoio da família, pelo que as suas dificuldades serão sempre minoradas. Mas, o preocupante, é a classe média de primeira geração (isto não é snobismo é realidade) em que os pais iletrados e de origem modesta, fizeram enormes esforços para proporcionarem estudos aos seus filhos. Esses, não podem voltar para "casa da mamã" como eu, ou vender alguns bens e regressar a uma vida mais simples, porque, simplesmente não possuem esse apoio, os pais permaneceram pessoas humildes, felizes por verem os seus filhos "singrar" na vida. Isto é particularmente notório para quem frequentou o ensino superior em meados de 80 como eu. Existiam os filhos dos ricos, dos assim-assim e dos remediados.

Os culpados, Nuno, são a merda dos governantes de Soares a Cavaco, de Barroso a Coelho. Desinvestirem em indústria, pescas, agricultura, I&D porque os povos do norte o disseram. Lembro-me dos tempos em que o pousio das terras e o abate de barcos pesqueiros era fortemente subsidiado pelos que hoje nos repreendem por não sermos auto-suficientes, improdutivos e o raio que os parta.

Desculpa, mas precisava de desabafar e nunca aceitarei o discurso da "vida fácil" ou "acima das nossas possibilidades". Tudo foi planeado para beneficiar os países do norte. O nosso erro (colectivo) foi deixar-mo-nos enganar. A solução está em recuperarmos as nossas actividades tradicionais da indústria às pescas e sermos inovadores e combativos.


Abraço,
Fernando

Nuno disse...

É bem verdade caro Fernando, houve um salto enorme nas últimas décadas nas condições de vida dos portugueses. O problema, como agora se nota, é que os governos que temos tido não tenham criado condições para Portugal poder produzir e crescer de forma sustentada, apostando, ao invés, em interesses da banca, de meia-dúzia de amigos, e de ser "bom-aluno" de mão estendida na UE...

Fernando Lopes disse...

Nuno,

Após o meu desabafo lembrei-me de casos de sucesso que podem ser potenciados, na posta acima. Para não dizerem que nós, bloggers, só fazemos crítica destrutiva e não nos empenhamos em contribuir positivamente. E obrigado pela tua participação e contributo, neste espaço que desejo de partilha e debate e não de monólogo.

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