segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O encantador de éguas

Eu e as meninas em plena troca de afectos
 Para quem, como eu, é um rapaz ou rapariga da cidade, a relação com os animais e o mundo natural é sempre algo de distante. Apesar de ter sido criado numa casa com quintal, em que cohabitavam em paz galinhas e um cão, os animais não são olhados como na aldeia, com uma visão utilitária. No campo, os animais são seres meramente válidos em função do seu fim. As galinhas e porcos são para comer, as vacas e ovelhas valem pela lã e leite, o cão é um animal de guarda. Ponto. Sem rodriguinhos, afectos e coisas do género, que já se sabe onde vão acabar. Eu, que em casa da minha avó, vi galinhas morrerem de velhice (é possível, caso não saibam), mantenho com os animais uma relação afectiva.

Lembro-me de uma visita à aldeia, quando uma criança, pasmei quando me disseram, esta é a galinha que vamos comer ao almoço. Escusado será dizer que a galinha permaneceu intocada no meu prato, para espanto e preocupação de quem me fornecia tamanha delicatessen. Até hoje sou incapaz de comer qualquer coisa que tenha visto vivo, o que presumivelmente já terá salvo a vida temporariamente a vários caranguejos e santolas.

Recentemente estabeleci relações de quase amor, com duas éguas que estão numa propriedade contígua à quinta da avó da minha mulher. Aquilo é uma sessão de paixão correspondida. Levo-lhes maçãs ou cenouras e trago cabeçadinhas, lambidelas, mordiscadas e sei lá que mais. Assim que me vêem, correm para mim à espera não só da comida, mas de uma sessão de carinhos que distribuo com agrado.Sinto-me uma espécie de "encantador de éguas", numa versão latina e anafada do Robert Redford. Como nunca tinha contactado de perto com cavalos, não imaginava o quão afectivos poderiam ser. Estou absolutamente rendido a estes dois equídeos. O almoço dominical tornou-se ainda mais atractivo, pois à sobremesa sou senhor de todos estes mimos, de animais que se me quisessem maltratar, certamente me deixariam em muito mau estado.

6 comentários:

Fenix disse...

Fernando,

Achei este post muito ternurento e informativo, pois eu desconhecia que algumas galinhas morriam de velhas!

O "encantador de éguas", versão latina, deve aproveitar ao máximo este maravilhoso mundo rural que ainda subsiste e preparar a sua alma gentil, para o que poderá ainda vir (sem querer ser apocalíptica), pois acho que estamos a caminhar mais para "Delicatessen" do que para "O Encantador de Cavalos"....

Abraço
Ana

Fernando Lopes disse...

Ana,

Para mim era inimaginável que os cavalos fossem ser tão afectivos. São mimalhos como um cão, ou então é algum dom que possuo e desconhecia.

Gostei da analogia cinematográfica!
Mas, entre o humor negro e canibal do "delicatessen" e a ternurice do "Encantador de cavalos", acabo por preferir a segunda hipótese.
Debaixo desta carapaça rude, esconde-se um coração de manteiga.
Abraço,
Fernando

O abominável careca disse...

Depois de ler o teu artigo não posso ficar sem fazer uma ou duas considerações: Que os animais têm a sensibilidade para reconhecer e distinguir os bons dos máus humanos não é novidade, agora estabelecer um paralelismo entre a tua sensiblidade e o "Encantador de Cavalos" parece-me um pouco exagerado! O Robert Redford interpreta uma personagem q já tinha nascido com o tal "Dom" o que não me parece que seja o teu caso. Se calhar o équidio(a) já está com uma idade avançada o que não lhe permite desçernir sobre aquilo que é essencial do acessório, esta foi uma piada parva, eu sei, é só para me meter contigo...:)

Fernando Lopes disse...

Não tenho dom nenhum, mas fiquei supreendido com o carinhos daqueles animais.

Abraço,
Fernando

Margarida disse...

Não é à toa que o cavalo é um aliado precioso para terapias de doentes autistas ou deficientes. Só um ser carinhoso, meigo e afectuoso pode criar empatias com os doentes, dando-lhes a paciência e segurança que necessitam...

Fernando Lopes disse...

Margarida,

Boa! Não me tinha lembrado do uso terapêutico dos cavalos.
Bem verdade!
Obrigado.

Abraço,
Fernando

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